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Mostrando postagens de Dezembro, 2014

Coisificação

Os nossos sonhos, as nossas ideologias, as nossas nostalgias
os nossos mais profundos desejos se tornaram quadros na parede
Broches, camisas, almofadas, anúncios publicitários de cerveja
e de tudo que é penduricalho barato que compramos em feirinhas hippie,
lojas de 1,99, ou mesmo pela internet - com a praticidade de um click

O mundo não existe mais
As coisas não existem mais
Não mais da forma como aspiramos

Os livros na estante criam traça
Os instrumentos musicais se deterioram esquecidos num canto
Os poetas somente bufam dentro de suas jaulas de ferro
Os novos pensadores se perdem num emaranhado de teorias

(O que está havendo conosco?)

Por falta de inspiração ou de coragem
A mesma lei que repudiamos
Determina nossas vidas e a nossa subversão

E tudo vira decoração, bibelô, objetos inanimados, devaneios soltos...
De modo que os seres, as relações e os costumes estão putrificando

O que era pra ser revolução se esvazia e exala estranhamento
O que era pra ser proteção não é nem repelente pra mosquito
O que …

Ser moderno. Ser inadimplente

O ser humano antigo que se pensa moderno é um grande inadimplente
Em dívida com deus, com o diabo e com o mundo 
Nunca tem tempo para nada
Sempre em atraso...

Com os amigos, com a família
Com o trabalho, com as contas a pagar
Com as plantas, com os bichos, com as palavras
E com os remédios que precisa tomar

Mesmo quando acorda cedo
O phatos diário é viver assim: 

Correndo de um lado para o outro
Tentando sustentar e reparar os erros e também os acertos
Manter os compromissos. Remendar a falta consigo mesmo
E criar sentido para a própria existência
Responsavelmente guardando algum para o túmulo 
De modo, a não criar nenhum infortúnio familiar

Sua vã filosofia
Apesar de lhe fazer perceber tantas coisas para além de sua compreensão
Não rompe com os relógios de ponto 
Nem com as reuniões em que se discute a invenção da roda
Por que gato mia? Por que adolescentes se masturbam?
Na prática, pouco, ou nada! Daquilo que se acredita é colocado em movimento

Por medo, conforma-se com os dias e com as horas sempre igua…

O canto da cigarras

Quem é você?

Que quer inundar o mundo com seu canto
Que canta incessantemente de forma tão livre neste fim de tarde
Que nunca anuncia a primavera e nem avisa a partida
Vem no verão e grita sem pudor

Eu não entendo essa melodia alarmante
Eu me confundo nestes minutos inebriantes
Eu mergulho em nostalgia por relações que nunca tive
Veja a tamanha maldição...

Esse teu canto maldito

Como se hoje fosse o último dia de tua vida
Como se quisesse levar a todos para o inferno
Não me diga que isso é apenas pela tua própria satisfação copular
Enquanto ensurdecemos com tua loucura

Isso é puro egoismo
Isso é puro instinto

Por isso,

Cantarei ao mundo também
Tenho meu truques
Minhas artimanhas

Evoé 
Oxalá
Quero morrer neste jogo de sedução

Antes que os carrascos
Os ceifadores de prazer
Destruam nossa liberdade

O cimento dos meus dias

As casas
Os prédios
Os muros
As ruas

O ar 
O mar
A terra
Os sentimentos

Os desejos
As aspirações
Os sonhos
As utopias

Tudo é concreto

... e se perde no contraste e no tédio

Deste concreto

Pálido 
Esvaziado
Petrificado
Arregimentado

Frio

... Concreto

E assim,
Nos solidificamos 
E morremos 

...  Docilmente
Concretamente

Sem rebeldia 
Sem anarquia
Sem poesia

Sem a maestria essencial do canto das cigarras
Morremos... Fingindo liberdade

Neste concreto que (também) nos servirá de laje tumular

Um lindo caminho para lugar nenhum

Uns ouvem Dylan
Outros Criolo 
Uns preferem Greta Garbo
Outros Frida Kahlo

Uns preferem se reservar
Outros se arriscar
Uns preferem definições
Outros sensações

Uns preferem o mar
Outros o livre amar
Uns preferem caminhar
Outros se imobilizar

Uns preferem plantar rebeldia
Outros o discurso da academia
Uns preferem a resignação
Outros a pólvora, o fogo e a explosão

Uns preferem os espartilhos
Outros puxar o gatilho
Uns preferem Almodôvar
Outros Tarantino

Peru, Machu picchu, Bogotá
Neruda, Plínio, Solano,Clarice
Rimbaud, Baudelaire, Augusto 
Glauber, Sganzerla, Sampaio

...

E entre beijos e bofetadas
Enquanto uns preferem a ressaca
Outros morrer de câncer e pauladas
Por tanto sonhar, por tanto querer...