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Mostrando postagens de 2011

Menina da terra

Em saudade
Queria te escrever utopias ao vento
Para ritualizar nossas energias e aliviar nossas dores
Feito isso
Pegar em sua mão macia
Acariciar meu pênis e te levar à hemorragia

De tanto te amar
De tanto te penetrar
Em suas ideias
Em seus delirios de menina da terra

Tão excitantes! Que em multiplos orgasmos
Construo um altar em pérolas no marE ofereço um sacrificio em teu nome
Para depois embebedar-me de vinho roubado de baco

Parte de minha parte Abrigo de meu abrigo
Fantasia real de minhas vaidades
Como um punhal quero gozar onde for
No meio de uma tempestade
Ou num suspiro de um beija-flor

Oh! menina da terra
Deixe-me morrer aprisionado
Entre os teus cabelos vermelhos
Ou soberbamente costurado
Entre teus belos pentelhos

Caminhei longas estradas

Caminhei longas estradas
Numa caminhada de tantos crimes
Sempre posto em combate, testado
E as vezes subjulgado por erros não meus

Aprendi viver de muitas formas
Petrificado, apaixonado, perdido e até indiferente

Hoje continuo caminhando
Impaciente, com medo...
Mas sempre teimoso e entregue
Tenho ânsia de viver

Seja como for
Não faço cerimônias pra vida

Quando uma borboleta pousa num menino

Viajo muitos quilômetros
Com meu interesse poético sobre as coisas.
Quero pousar, num vôo vacilante de borboleta,
Nas rosas e lírios e no que mais encontrar.

Pousei em você.
Nas tuas cores, nos teus cheiros, nos teus sonhos,
No modo como o vento te embala os cabelos.
Finquei minhas patinhas na pupila dos teus profundos olhos.
Todas as tuas essências
Me inebriam de ternura, de paz e bem!

Vou a teu encontro sempre inacabada
Sem ainda ter me livrado dos meus ascos,
Meus melindros, minhas incertezas, minha tristeza.
Com espanto observo um espaço sendo a mim oferecido.

Estou carregada de bagagens inúteis, querido,
De tanto lixo obscuro, ainda hoje um demônio veio me espreitar
Mas você parece não ter nojo

E este carinho me limpa e me acalma
Cada ternura, cada palavra pronunciada
Me livra duma tristeza, de uma culpa, dum remorso.
Vou caminhando, querido.
Quero ir com você a algum lugar e você tem razão:
Pois não importa onde seja, mas sim o caminho a ele.

O que importa mesmo é este vôo borboletante,
É esta doçura d…

O algoz

Estive caminhando distante de mim Por um longo tempo
Por várias vezes no caminho parei
Tentando buscar minha alma

E quanto mais buscava
Mais me perdia e menos me entendia
Pensando estar imune a dor
Resolvi me significar em pedra

Tomando a frieza como companheira
Cobri meu corpo em mármore
E assim viveria salvo e protegido
Com os meus ascos e os meus ismos
Edifiquei um altar chamado solidão E ofereci-me em sacrifício

Assim vivi
Nem triste nem feliz Petrificado

Até que um dia de madrugada Ela veio me visitar, linda e sedutora
Abriu as portas e as janelas, sem a minha permissão
Rasgou com delicadeza minhas defesas
E liberou o cheiro podre que vivia em mim

Aos poucos em silêncio Pensei em fugir, esconder meu sexo
Olhei no espelho e querendo desafiar sua conquista Quase não suportei, frente a frente
A encarar o algoz que vivia em mim

Feriu-me
Mortalmente
Feriu-me

Percebi então que há muito tempo não me via
Velhos sentimentos explodiram
E eu enlouqueci covardemente
Fingindo solidão

Mas ela mirou-me nos olhos
E sem dizer nad…

Essa vida mortal

Disse certa vez:Essa vida mortal é tão bela e frágil Como o calcanhar de Aquiles

Não segura os demônios Não contem as tormentas Nem emite qualquer tipo de resposta
Repito e acrescento: Abrir-se ao mundo é deixar o inferno entrar Será traído e apunhalado covardemente
Ok! Doravante Não mais morrerei só Farei do inferno minha casa E dos demônios minhas línguas de fogo
Pois, sou tão sujo e podre Que vou guerrear e fazer sangrar sem piedades
Afinal, a piedade é bajulação dos canalhas E bajulação me faz vomitar
Quero mesmo é morrer de sanidade Trepando e gozando com a loucura
Ah! Vida mortal tão bela e frágil Dê-me mais uma dose de seu veneno
Deste néctar quero saciar minha sede Até adquirir uma cirrose Uma trombose Coagulo sanguíneo
E quando morrer Atirem-me numa vala Ou sirvam-me num despacho de sexta-feira Junto com uma garrafa de pinga e um frango degolado
Decreto assim Minha liberdade

Prelúdio de morte

O fim é prelúdio de morte E a morte não tem cor nem sabor Por isso dói e rasga Por isso, Abraça a vida em seu manto de medo E transa com ela
Porque morrer é nascer E nascemos pra morrer Ciclo sem fim de abandono e desgraça
Acostuma-se logo a essa praga Acostuma-se logo a essa merda
Porque tudo vai dar merda!
Viva a merda!
Transa com essa merda Goza com essa merda Fode essa merda, porra!

Essas rosas

Essas rosas são para mim Claro que senti medo Essas rosas são para ti Claro que sentirás medo
Nossos olhos machucados Acostumam as dores facilmente Com isso não enxergam para além
De forma que parte da vida é estranhar O que se recebe de bom grado E as vezes o bom grado também fere Faz parte da vida
Triste seria não estranhar Triste seria não lutar Triste seria não se libertar
Antes de tudo De rosas mortas E sentimentos pálidos

Desta morte que liberta

Escondi minhas tristezas E as transformei em armas Assim enfrentei um mundo Que não para de rodar
Mundo este Que não dá certeza Nem colher de chá Mesmo a olhos nus, é mistério
Como um tolo Enrolado em fortes tranças Pensei ser inquebrantável
O subjuguei Arrogantemente O subjuguei
E meu corpo se incendiou Com essa energia inesperada Queimou! Ferozmente queimou
Morri
Aceito morrer Desta morte que liberta Aceito morrer Desta morte que não é tragédia
Leve-me Mate-me
Atire minhas cinzas ao mar Ofereço-me a ti em sacrifício
Aceito morrer

Por migalhas

Por migalhas vivemosPor migalhas morremos Por migalhas matamos Por migalhas deletamos
Há quem diga viver sem ela
Olhe para o movimento histórico Não há porque se gabar Custo caro cada pedaço de mentira Que construímos como verdade
Por migalhas nos desencontramos Por migalhas nos perdemos Por migalhas Sempre por migalhas
Frágeis como dinamite

Só acredito no caminho

Só acredito no caminhoSó no caminho posso acreditar Na espontaneidade que oferece E na simplicidade que mostra
Sei que não posso viver sem sonhar Sei que essa tal liberdade Que já me fez cometer tantos crimes E me salvou de tantos outros É o placebo que me faz caminhar
Mas confesso em tempos de juventude Minha paixão pelo caminho Só no caminho eu senti o sabor Que as construções nunca me deram
Só no caminho eu me senti livre Sem conhecer liberdade
Que na verdade, se é livre Não tem nome, não tem dono Nem significado algum Flui naturalmente
E no caminho, não só a caminhar Ao olhar o caminho, aproveitar o caminho!

Quando a vida se torna amarga

Me transformei num monstroAgora me perco por aí Em milhares de pedaços Que nem a mim interessa
É difícil ter e sentir culpa Sem ter culpa ou desculpa
Assim Só o medo resta Diante de uma sina assassina
Que dilacera a alma E sepulta quem sou
Me tornei tão vazio Quanto você disse que eu era Por isso, estou tentando recomeçar Um dia de cada vez
Já disse: Santo são os hipócritas Que não têm coragem de recomeçar Quando a vida se torna amarga
E a vida se amarga Pra caralho! Ainda sim não faço papel de santo Prefiro me perder por aí

Hoje tomei cappuccino

Ontem tomei loucuraE confesso morri de liberdade Hoje tomei cappuccino E nada de burguês encontrei
Ainda sim, retrocederia E te roubaria a contra gosto Percebi em juventude Que filosofia barata Não vale uma punheta
Ter sem ter Amar sem amar Viver sem viver Não ligo e preciso
E quase sempre sinto azia
Mas não te sentir e fingir Que outro dia virá Me fere mortalmente Me atirando num hospício
Por isso, de agora em diante Destroçarei o destino Em milhões de porra Menos trágico que meus últimos anos

Só posso amar em dicotomia

Só posso amar em dicotomiaPor isso lhe matei E libertei todos os ismos sociais Que empobreciam nossas vidas
Hoje não casca nem abrigo Sou cínico, quase livre Sem razão, sem direção Sem que nem pra que
Só pra viver e ser Um ser espalhado em energia cósmica Buscando outras energias Que não cobrem dia útil
Não há porque Viver e viver E ser somente Coleção do outro
Não
Por isso lhe matei Mesmo que isso seja solitário Mesmo que isso seja dor Só posso amar em dicotomia

Mata essa vida que te mata!

Pra além das coisas constituídasMata essa vida que te mata Pra além das coisas impostas Mata essa vida que te sufoca
Essa vida que te condena Essa vida que te joga num abismo de desesperança Essa vida que te faz cumprir todos os dias Uma função social inútil Essa vida que te faz amar quem não te ama
Mata essa vida que te mata
Sepulta Enterra Chuta Cospe nela
Porque nossa capacidade e necessidade pela vida É bem maior que as pedras no caminho Mesmo estropiados É preciso pensar pra além
Mesmo quando a derrota É a única companheira na volta pra casa Mesmo quando todas as luzes Se apagam inesperadamente
É preciso conquistar cada novo dia Com unhas, dentes e socos
Única verdade Não há sabor na vida morta
Por isso Mata essa vida que mata!

Acorda este cadáver

Sou este cadáver que tu vê
Sem fé, sem crença e sem dicotomia
Atirado em espaço aberto Pronto pra guerrear Pronto pra matar
E ainda tu pergunta Quem sou
Eu sou este cadáver que tu vê
Este cadáver Que tu não crê Este cadáver Que tu não entendi Este cadáver Que te arde as vísceras
Te incomoda Te esculacha Te toma E te faz bem até quando te machuca
Eu sou este cadáver
Realidade abrupta Sem maquiagem Sem destino Só de passagem
Sou morte e solidão Tua vaidade Tua aflição
Eu sou este cadáver
Em pedaços Na porta da tua sala Te chamando pra luta Vai acorda! Que a vida é dura
Viver não é pecado Liberte-se! Somos todos carne Que servirá aos vermes
Agora, se ainda me perguntar Quem sou Vou te responder cuspindo na tua cara
Sou este cadáver que tu vê Sem fé, sem crença e sem dicotomia

Lutar

Queria fingir que nada aconteceDeixar de acreditar nas ações Buscar mentiras pra me enganar E me afogar em insônia
Há uma verdade cruel A gente cansa Perde as esperanças Os sonhos A identidade Não é fácil
A luta é diária e esmaga Somos atirados em todas as frentes E não há prioridade O mundo explode Reacionários se erguem por todos os lados
E aí que fazer?
Só há uma saída Só vejo uma saída
Lutar Continuar lutando

O véu das vaidades

Queria amar todos os seus delírios Mas confesso negligência Até porque o véu das vaidades É uma faca de dois gumes E meu tempo de juventude Me deixou impaciente
Sei que poderíamos filosofar Longas noites a fio O que aumentaria o tesão E estimularia o mistério
No entanto, se for pra fazer isso Sem uma sinuca, uma cerveja e nossos corpos nus Te digo: estou indo pra casa Acrescento: desarme-se Deixe-se envolver Um pouco mais selvagem
Um segundo perdido Mata

Caminhos

Caminhos diferentes não se aproximam Triste pesar dos caminhos diferentes
Diferentes não se completam Por que são diferentes?
Cada caminho só É só, não resolve dúvidas do caminho
Caminhos diferentes Querendo ordenar as coisas
Transformam tudo em desordem
Caminhos diferentes Não se encontram? Não se comungam?
Será puro desespero? Disfarçando sabedoria
Caminhos diferentes não se aproximam Triste pesar dos caminhos diferentes

Pontos e vírgulas

Quase sempre me assusta
Pontos e vírgulasConstruções e significados
Penso que há Um certo mascarar a vida Por trás de cada palavra E pensamento bem elaborado
Será trauma ou covardia? Quase sempre, medo de emancipação Se é, que tal qual existe
Estranho é pensar Que viver de forma resolvida no mundo Tornou-se sinônimo de vazio
Afastar Isolar Deletar Eleger bichos e plantas
Fácil Não reclamam Não opinião Obedecem
Pois é, a diferença assim, de que vale?
Fica soberba Distante Sábia E se afoga num copo de veneno Disfarçado de liberdade

Espaços vazios

Não existem heróis
Nem vilões por aqui
Tudo está acabado
Sepultado num quarto sem flores

As estrelas brilham
Meio ofuscadas
Afogando mágoas
E mágoas são finos retratos
De velhas mentiras desbotadas
Atiradas na calçada fria

Queria lhe matar pra viver
Queria te arrancar, esquecer
Memórias mortas
Que não servem de nada

A solidão devora
Estrangula meus ismos
Cadáveres invadem
Espaços vazios
Nas mentes perdidas
Que vagueiam na noite

Te digo
Preciso te enterrar pra viver
Preciso te matar pra esquecer

Assim
As dores que rasgam em mim
Te devolverão o veneno

Chega de desculpas
Ninguém aqui é santo
Pobre coitadinho
Confundiu doce com amargo
Apenas descolem essas frases
Que insitem em mentir
Uma linda história de amor
Que nunca existiu

Quem nunca existiu
Se perdeu
Quem nunca existiu
Se partiu
Quem nunca existiu
Se quebrou

Envenenou-se
E de amor
Morreu
Sem nada entender

Que o amor não é eterno e nunca será
Que o amor sempre fere e viverá

Nas entranhas amaldiçoadas humanas
Que não se contenta com pouco

E não era pouco
E não era pouco

Mas se perde…

Liberdade não existe

Quem vamos ter que fuder pra conseguir essa tal liberdade?Essa é a merda que temos que encarar Te digo sem piedades Como aprendi com Piva Se alguém venceu na vida É porque está fazendo merda
Dentro da realidade que vivemos Acostuma-se a vala Acostuma-se lama
Únicas companheiras que não irão te apunhalar pelas costas
E te digo mais A vida assim, cheia de regras Mesmo que libertarias É um prato cheia de bosta
Não há maquiagem Liberdade não existe Não tem botão que reinicia porra nenhuma
Canalhas,canalhas e canalhas Por todos os lados canalhas
Carismáticos Simpáticos Talentosos
Gente metida a besta Que sempre fode tudo Querendo ser autoral Única
E aí? Mais uma dose? De loucura? Filosofia barata que só serve pra se masturbar
Esse conhecimento histórico anárquico Me dá vontade de vomitar A gente tá levando no cu sem vaselina E querem esbanjar teorias
Que geração é essa? Que geração de merda é essa? Não consegue fumar uma maconha sem brochar
Mania de vida saudável Vai pro caralho! Eu quero adquirir uma cirrose Um câncer de pul…

Triste universo indecifrável e cruel

O ser humano Constrói em suas entranhas sociais
Um ser fraco Desamparado Que deseja ser salvo
Triste universo indecifrável e cruel
Refugio Covardia Medo de emancipação
Construção simbólica? Desatino de uma alma doente?
Pois é, Deus é um pensamento mítico Que superou as cavernas

Sem piedade

O destino Não oferece aviso prévio Nem declara feriado
Ele acontece E nosso livre arbítrio Entra em óbito
O que era pra ser sustentável Derrete e se perde no vazio
Por não conhecer regras Por não ter controle de rédeas Colapso inevitável
Atirados num mar em fúria Sem dó Sem piedade Aceitamos o morticínio
Angustiamos Imploramos
Explicações inúteis Que sufoca a existência
Afinal o destino É uma explosão que devora sem compromissos

Determinado

Queria poder dividir Quem eu sou Da função social que exerço
Assim produzir sem odiar E encontrar sentido no que faço
Mas aqui estou Acorrentado Incapacitado
Determinado pelas condições materiais Que regulam a vida
Afastado de mim Me sinto atirado em contradição
Dividido Empobrecido Querendo gritar Silenciado
Tendo somente a certeza Que em cada peça que produzo Um pedaço de mim se perde

De resto

Vivo em descompasso Anacrônico
Pergunto: O que são esperanças sem um gole de veneno? O que é a vida sem um coquetel molotov?
É preciso ter explosão!
Nem sempre podemos corrigir Domar Controlar
Mas podemos decidir a estrada a trilhar De resto, aceitar as intemperanças de nossos próprios medos
Por isso, desafiar mares e tempestades Ou conformar-se Com rédeas e significados sociais

Há de ser uma constante

Humanizando-se, o ser humano sente a necessidade De controlar a fera que existe em suas entranhas
Ainda assim, é fera!
Domesticado por uma instituição, ou por suas convicções libertárias
Recusando a fera
Caminhará em busca de significados Ocultando sua parte impiedosa Porém, viverá em contradição
Pois sendo fera
Há de ser uma constante explosão de liberdade!

Deveras

Deveras crer na barbárie Sem culpa e sem remorso Controlar o caos em medidas Iludir-se com a paisagem morta
Pois tudo que há É morte e submissão
Contudo, liberdade
Essa maldita quântica Explode em necessidade No coração ensanguentado
Desesperados Se atiramos em lutas intermináveis
Te digo Contra o inevitável Nunca verás ou terás glória alguma
No fundo da alma Confusa e perturbada Desafiar o demônio Um dia, se tornará
Porque inocência é uma quimera Que só levará ao caos
E nada impedirá Do inicio ao fim Somos feitos de caos

Morrer numa esquina

Eu quero morrer numa esquina Perto de uma praça Dessas qualquer Que tem cheiro de saudade
Próximo de um bar Próximo do mar Das coisas da minha terra E da força da minha gente
Força essa Que carrego comigo dentro do peito Pra nunca esquecer quem eu sou
E quem eu sou? Fruto de um sonho De tempos melhores, de uma vida mais vivida
Caso um dia, eu disso esquecer Atire-me numa vala qualquer Porque não serei digno Nem de morrer

A cruzada das crianças

Adaptação de um poema de Bertolt Bretch e sobre o mito cruzada dos inocentes.
Conta-se a história de crianças errantes Que partiram numa longa jornada Em busca de uma terra de paz
Crianças sem Pátria Crianças sem pais Crianças...
Faziam das ruas seu lar Seu sustento Sua barra vento
Pelas praças Pelas esquinas Calçadas Descalças
Vendendo balas Vendendo flores O corpo Vendendo
Corria-se o boato Que insatisfeitas Resolveram partir E de cidade em cidade Iniciava-se a cruzada
A princípio eram umas cinco Depois vinte Até perde-se as contas Ma tudo ia bem
Um menino de uns dez anos orientava Nas ruas desde os cinco Conhecia os problemas como ninguém
E havia a professora Uma menina de olhos profundos Muito inteligente Sabia parte do alfabeto E ensinava com entusiasmo
Principalmente a letra F De "família" E claro a letra R De "responsabilidade"
E como toda boa história Havia um romance Ele com nove Ela com oito
Tão jovens Adotaram uma menina de cinco Teve festa de aniversário e tudo Sem bolo Sem presentes Porém com muita…

Um café às seis

Um café às seis Numa padaria qualquer Assistir a vida começar Vê-la lentamente no ar
Após a primeira notícia da manhã
Rotineira Prisioneira Matreira
Com gosto de desafio Com gosto de solidão
E às vezes sem sabor Assim, acabando com a eternidade
Sem dó Sem piedade
Nasce e morre Num compasso e descompasso
De outro cigarro De outro pensamento De outro café

Velhas lembranças

Nas lembranças da infância Imagens perdidas de um adeus Alegorias de um mundo virtual Soltos num quintal imaginário
Onde tudo é permitido Sagrado e fiel
Sons naturais alegram a dança das formigas O tatuzinho que se enrola A semente de laranja que explode
E tudo é belo O alvorecer A gota A terra A vizinhança Os peixinhos da maré O mangue onde caem as pipas cortadas pelo cerol
Assim Sem culpa Sem valor A vida é mais vida e vivida
Não há dor ou construção de significado As horas serpenteiam sobre nuvens Carregadas de sonhos leves de papel
Enfeitando Pinturas de giz Tecidas Bordadas Recortadas
A cada novo despertar Lúdico Puro
Do menino Da menina
Que brincaram até cansar Na amarelinha desenhada No chão de terra Molhado pela chuva
E na saudade Gosto de liberdade Quando se perde por aí Pelas coisas da vida

Lutar, criar, poder popular!

Os jornais publicaram que os sonhos acabaram As linhas foram cerradas e o povo ainda tem fome Enquanto a social democracia se afoga em mentiras
Mas os oprimidos ainda estão nas ruas gritando Todos estão gritando! Todos estão ocupando!
Talvez você não veja E não acredite
Pouco importa Porque o poder popular Ninguém pode calar
Todos estão gritando! Todos estão ocupando!
Lutar, criar, poder popular!

Façamos questão de duvidar

Duvidar Façamos questão de duvidar Questionar Façamos questão de questionar
Não devemos propor nada Façamos questão de não propor nada Ridículo e inútil Dentro de um Estado podre
Jamais!
Acreditar numa vida regrada Encaixada Cheia de cabresto
Jamais!
Há de ser decretado
Desconstruir Demolir Toda linearidade da vida
Calabouço de pensamentos Cinto de castidade da vida
É preciso viver e morrer Da forma como quiser Livre e nu
Ao contrário disso É castrar a criatividade humana E viver anestesiado

Menina na chuva

Sou como Deus me fez E a vida me criou
Livre desde os treze
Até onde a sina me levou
Assim
De qualquer
E por qualquer canto Livre
Onde o sol arde
E a morte
Término de prantos
Lugar de gente boa
De gente batida
Pouca instrução
Muita ilusão
Meu nome eu aprendi
Como também
Somar e dividir
Meu pai eu nunca conheci
Minha mãe eu pouco a vi
Perderam-se no mundo
Em busca de paz
Indo, indo, indo... E sumindo
Num véu que nunca lhes cobre
Com a minha avó
Fiz-me gente desde os seis
Na olaria
Na cana de açúcar Por que a vida é dura
E sua poesia
Começa às cinco da manhã
Quando dá, tem leite de cabra
Quando não, nenhum pingo da água
No sertão muito fé e seca braba
Morrer não é infortúnio Viver é o desafio
Crescida
Aos treze vim para São Paulo
Em busca de sonhos
Em busca de trabalho
E na Augusta isso foi fácil
Menina nova
Virgem
Cabaço Adianta-se pela noite
Dentro de um carro importado
Ou num quarto sujo Por míseros trocados
Aprendendo que a vida
Só quer esmagar
Tanto pra quem não tem morada Quanto para quem trabalha de carteira assinada
Num dia de…

SARAU do CES (centro dos estudantes de santos) Traga sua poesia, sua revolução e sua alegria!

Venha curtir o Sarau do CES! Traga poemas, poesias, textos, textinhos e textículos. Músicas, sonetos, canções e violões. Violas, atabaques, flautas e flautins. Gaitas e guitarras…
Traga amados, amadas, poetas, músicos e boêmios. Mães, tias e filhos.O Sarau do CES acontece logo após o som baixar, na Noite do Vinil. Tem Bar do CES também, angariando fundos e fundilhos para a casa e os trabalhadores árduos e incansáveis deste grandissíssimo evento!
(:Todas as sextas-feira, Noite do Vinil a partir das 20h e Sarau a partir da 0h.Av. Ana Costa, n.308 (ao lado do Extra)Santos, Brazil Para saber mais sobre o CES acesso o link Blog do centro dos estudantes de santos

Cordel para um maldito

No dia em que eu nasci Minha mãe assim falou Este meleque Nasceu pra ser doutor
Tão logo profetizou Meu velho nos abandonou Largados na vida Sem eira e sem beira A minha mãe foi Matuta e arteira
Vivia como podia Com criança de colo Na medida em que eu crescia Mirava naqueles olhos
Toda a amargura De dor que a consumia Pela falta do dinheiro Pela falta do pão Pela falta do emprego Pra pagar o barracão
Vida esmagada de dar dó No final do mês ainda era pior Mas a fé não faltava Deus iria ajudar Mandava-me pra escola Obrigava-me a estudar
Eu não sei por quê Acreditava que ali Não era meu lugar
Eu queria mesmo Que tudo fosse como à televisão Um conto de fadas Como aquele programa Chamado malhação
Mas minha realidade Era totalmente diferente Ela não dava ibope Na merda do horário nobre
Asfixia para os pobres
O tempo passou Minha querida mãe Deus a levou Agora era só eu Neste mundo de Deus
Alguns diziam: Moleque vai trabalhar Mas não encontrei um filho da puta Que pudesse um emprego me arrumar
Mamãe sempre me ensinou Que era feio roub…

libertar-se

É preciso libertar-se Dos grilhões e das velhas mentiras Habitantes do imaginário humano
Concepções de poder Apenas deterioram a vida E nos transformam em lobos
É preciso libertar-se De todos os mitos e ritos Que nos atiram num buraco de hierarquias
Hipócritas e dominadoras Que afasta o sentido de viver Roubando nossa própria essência
Existência
É preciso libertar-se Todos os dias Todos os dias!
É preciso libertar-se Até a morte Existência
Libertar-se

Oferendar

Eu quero erguer meu sexo às três da manhã Dilatar minhas pupilas em tua carne Sentir teu corpo quente e suado E colher a explosão de tua vagina em minha boca
Assim lhe oferendar
Um dedo Uma língua Um pênis Um brinquedo Uma massagem Um carinho
E pelo resto da madrugada Morrer E te matar De tanto gozar

Primaveras de pólvora

As folhas secas caem Outono incerto cerca a estação E se esvai
Utopias se erguem Explodem Multiplicam-se Fascinam
E agora? Por onde trilhar?
Tantas armadilhas pelo caminho Lobos sedentos querendo devorar
Será que um dia a palavra liberdade Será mais que um sonho poético?
Haverá chances então para os povos Florescerem em paz?
Cantando suas próprias canções “Venceremos”
Até onde podemos sonhar?
É preciso seguir Encontrar o caminho
Juntos Morrer se for preciso
Por enquanto
Primaveras de pólvora Pólvora sobre as primaveras

Na brevidade

Um cigarro Um tempo Outra história
Outro dia Outra vida Outra memória
Preencher O tempo O vazio O descompasso
Sonhar Temer Caminhar Cada passo
Assim Sem pressa Sem dor Sem remorso Devagar
Na brevidade De quem morre Num segundo Perdido Recomeçar

Entrega-te

Entrega-te As lutas desta terra Que são puras Legitimas
Entrega-te Pois elas precisam de braços fortes Corações grandes E mentes audaciosas
Entrega-te E faça desta luta Uma bela canção libertária
Tal qual Cantaremos juntos de mãos dadas Fraternalmente
Até o fim dos dias Entrega-te

Boas poesias

Confesso em poucos versos Meu mal gosto pela poesia
Desagrado Incomodo Fétido Cínico Perverso
Boas poesias São como solitárias enroladas nas tripas Gerando mal estar na vida inerte
Azia Vômito Escarro Pus
Poesia rosinhas e bonitinhas De anjinhos fofinhos Não!
Vírus Verme Veneno Gafanhoto
No lírio do campo e nas plantações Porque poesia não é enfeite!
Poesia É enunciação do caos

Criando significados

Vago por pensamentos soltos De outro tempo De outra vida De outra memória
Busco encontrar dissonâncias perdidas Entre a criatividade e a fraqueza humana
Reconstruir significados Desmitificar coisas sustentáveis
Assim trançado no véu da aflição Estranhar cada medida estática da vida
Discordar de cada alegoria sem alma E suspeitar de toda teoria contemplativa
Que não é liberdade! Sim, mortuário e cárcere
Que aprisiona o sentido da vida Num emaranhado fúnebre
De ideologias mortas

Da vida morta

Dialogando com minhas ideias Penso sobre o mundo Encaro dores E pondero diante de tanta indiferença
Revolto-me Diante da vida calada Esmagada Imposta
Utopia me sustenta Mas me angústia A normatização do status quo
Da vida morta Que querem nos naturalizar Da vida morta Que querem nos fazer crer
Mentiras Reformas Altruísmos E tudo é veneno
Tamanha violência Que paira Não é fruto do acaso
Em nome da mais-valia Não se olha nos olhos Não se toca nas mãos Inércia generalizada
A lógica de viver Não tem sentido Há de ser combatida
Gente não é mercadoria Gente não é coisa morta

Sem fel

Hoje quero ser tua casca Tua caça Lua nova Renovação
Ofereço-me sem ismos Sem apegos Dor Ou ilusão
Que os dias passem Devagar Sem preocupação
Em folhas de papel Desenhar o amor E oferecer o mel Sem fel
Assim Pra ti Amar
E declarar feriado Cada eterno segundo Que passa

Insana e orgânica

De vez em quando um copo de lucidez Pra restabelecer a loucura Ou quem sabe um copo de loucura Pra restabelecer a lucidez
Cai bem? Não sei! Rasgo as respostas e mergulho no infinito
Na vida indecifrável a gente divaga Entre sonhos que quer controlar Idealizações que quer viver Ou sonha roubar
Mesmo quando a ressaca é pouca Ou a luz dos olhos querendo partir se apaga
Acende um cigarro e deixa o tempo passar Toma mais um copo e deixa o tempo soprar
Por entre os cabelos esperançosos de quem sangra Por cada pedacinho de liberdade conquistada E se pergunta, sem medo ou vergonha da dúvida
Qual a próxima sacada que irá nos tirar da rotina?
É preciso sacudir a mesmice e provocar abandono Sobre tudo que é normal e sintético!
Somente a vida insana e orgânica dá tesão E alimenta revoluções

Cidade dos homens

Minha cidade é vadia Faz o que bem quer
Entre ruas solitárias e vielas escuras Lobos se erguem na caça de sangue
Uivando suas preces Ritualizam uma nova moral
Destino insólito e vulgar A cidade é cúmplice de todo o pecado
Permanece em silêncio caótico Rasgando o véu das moralidades Numa dança pagã de iniciação
Ela devora e vomita sexo Violentando o paganismo Dos tolos hipócritas e amantes de concreto